perspectiva

Às vezes o silêncio febril impregnado que nos acompanha na terrível rotina é um agente fundamental para o diagnóstico que acusa o que há de errado conosco. Esse silêncio de quem não tem nada a dizer, de quem segue obedientemente a inércia do cotidiano, em que um simples mover de ônibus decide o próximo passo em que se vai fixar, e que segue o corpo totalmente alheio de si reagindo a todas os impactos que lhe confronta, é o que antecede tudo.

Esse silêncio em suas diversas formas de manifestação vem, na maioria das vezes, acompanhado de uma insaciedade de algo extremamente desconhecido. Até mesmo porque o corpo já foi alterado tantas e tantas vezes por agentes externos que reconhecer as suas necessidades, limites, fronteiras e extensões de si mesmo é uma tarefa extremamente árdua. Engana-se quem pensa que a maior dificuldade do ser é qualquer outra coisa senão enfrentar o fato de ter se perdido em meio a centenas e centenas de dias a fio, e sequer reconhecer a causa disso.

Alguma teoria escrita em algum dos milhares de textos científicos alega que jamais retornamos do mesmo lugar ou experiência da mesma forma em que fomos; ora agradecemos por essa divindade, ora a praguejamos. Há nada que possa ser feito sobre. Eventos mudam, pessoas também e não existe nada de condenável nisso exceto pelo fato de que podemos ser alterados tantas e tantas vezes que chegamos a perder o último átomo de nossa essência.

O desconhecido no espelho não é algo fácil de se encarar. Não há facilidade em voltar, em partir, em recuar, em tomar grandes decisões, ou enfrentar um mínimo novo desafio – que em dias bons será algo que te lançará rumo à excitação pelo novo, e, em dias ruins, será nada além do simples ato de levantar da cama e ter de encarar o mesmo ciclo dos outros 365 dias.

E, por fim, quando chegamos lá no fundo dos nosso próprio oceano, na nossa própria jornada escura e profunda repleta de corpos estranhos formados por memórias estranhas geradas em um piloto automático demasiado excruciante, não há nada o que fazer além de nos habituarmos ao novo, adaptarmos aos nossos próprios desejos desconhecidos, aos nossos novos sonhos, que há centenas de dias não eram os mesmos. Somos gerados para sobrevivermos a novos desafios, para gerarmos soluções para os mais impensáveis problemas, e, ainda que não sejamos treinados para nos consertar, acredito que o importante é jamais ter medo de zarpar rumo à uma nova viagem. Sempre é hora de recuperar a nossa essência juntando os cacos de memórias relapsas, ou nos redescobrirmos em nossa mais nova e bela forma.

Há de se ter coragem para toda quebra de silêncio, assim como há de se ter paciência para diagnosticar a causa do mesmo. Acredito que não existe forma de recuperarmos os nossos dias inertes, mas sempre há tempo para tomarmos as rédeas de nós mesmos.

(Ou isso tudo é uma grande mentira que inventamos para confortar a nós mesmos).

 

 

quente

As minhas coisas favoritas do mundo eu gosto assim: quente, fervendo, pronto pra ser degustada e apreciada, confortável ao descer pela garganta… Coisa que esquenta por dentro, tá entendendo?
Quero coisa que acolhe e preenche de dentro pra fora. Coisa boa é assim: quente. pelando. fervendo. Exige certo treino até descobrirmos qual é o ponto certo pra não se queimar, mas tem que ser quente.
Quando esfria trava as juntas dos dedos, o corpo enrijece, e o coração também. Coisa boa tem que ser fervendo pra gente não se esquecer do momento em que foi tocado por dentro, em que foi despertado e envolto.
Enjoa todo dia comer sobras requentadas de ontem – ou sobra nenhuma. É necessário empenho pra se manter quente. Um quente com zelo, não um quente com rancor e pesar no coração, esse quente queima e destrói. Mesmo assim, prefiro antes esse quente do que a frieza do desdém.
É que já dizia minha mãezinha: coma quente, senão vai esfriar.

frio

o frio que atinge em cheio meu calor
e torna frio tudo que lutei para recompor
o frio que apaga tudo que há de valor
e entrega tudo que criei sem pudor
o gelo que você quebra
e se renegera
em frações de mínimos
segundos ínfimos
momentos íntimos
voam longe do exímio
do lindo
do belo
que simplesmente era
e agora o desgaste é o preço que se paga
para simplesmente
ser.

respiração

sua respiração forte e estável no meu pescoço
me distrai do fato que somos feito de carne e osso,
me mantém distante da ideia de vivermos em um mundo pálido e insosso.
me lembra o cheiro suave das tardes em casa livre de todo escarcéu,
onde crianças corriam e roubavam as flores de hibisco para sentir o seu mel,
e depois olhavam para todas as flores de jasmin amarelas como se fossem feitas para contrastar com o céu.
você é abrigo.
é o conforto e abraço em um lugar preciso,
é o paraíso na Terra em um único sorriso,
é a beleza na espafatalhosidade de um riso não contido.
memoráveis são todos dias gastos contigo.

uma noite após

Às vezes sinto que estou oscilando entre o paraíso e a Terra. Se em um segundo estou em teus braços me sentindo amada, me sentindo no lugar mais confortável e seguro do mundo, em outro já me sinto pesada: eu me transporto para uma casa vazia, escura, que estou fadada a estar até chegar a minha liberdade que se traduz em cifrões. É estranho como todos os dias antes de dormir meu pensamento acha o seu próprio caminho sozinho: automaticamente ele caminha para memórias reais de um passado não muito distante e, em outras, ele navega para terras desconhecidas, para um futuro imaginado perfeito conforme o planejado.

Me pego observando o quão corriqueiro isso é e só consigo chegar na certeza mórbida – porém feliz porque, em momentos tão trágicos como esse, consigo enumerar as prioridades da minha vida – de que se algum dia eu estivesse prestes a morrer instantaneamente, como se uma bala cruzasse a minha cabeça, você estaria lá, em meus pensamentos como a felicidade mais concreta que eu já tive: a felicidade mais duradoura, mais pura, a que me fez acreditar que ainda há esperança, que coisas boas acontecem, que fez com que eu me mantesse sã enquanto todas as loucuras que permeavam a minha mente.
Eu volto todo dia no final de tarde com um peso no peito. Mas com a certeza de que todo dia é um dia a menos pra arrancar de vez a dor da distância que corrói por dentro.
Os poetas estavam errados: inegavelmente a parte mais dura de se amar é aquela que vem antes do amor virar a mais bela das rotinas.

palavras mal-ditas

essas palavras não-ditas,
essas palavras mal-ditas,
essas palavras benditas!,
essas palavras-parasitas,

ah
essas palavras impregnadas
em minha mente,
essas palavras mal pensadas
que surgem de repente.

cada palavra desses me olha e
me fita.
palavras malditas.